"Esta é a história de alguém que viveu largos anos a enganar-se a si próprio e que não quis acreditar na verdade e vestir uma máscara 24 horas por dia, esta é a minha história. Nunca fui uma pessoa que tivesse facilidade em socializar e fazer amigos, mas se olhar para os tempos de infância consigo perceber que as coisas eram razoáveis e que apesar dos primeiros sinais de que algo estava errado terem sido dados muito cedo, consegui passar despercebido durante muito tempo e ainda quero acreditar que isso acontece pelo menos com a maior parte dos que me rodeiam. Tinha 12 anos quando os rumores começaram e não foi da melhor forma…uma coisa são mexericos, outra é aquilo que definem como bullying homofóbico. Andava na escola como qualquer miúdo daquela idade andava e de um momento para o outro vi um rapaz que não era da minha turma nem me conhecia propriamente insultar-me em todos os momentos que se cruzava comigo nos corredores. A conversa era sempre igual “Paneleiro… Gay…”. Isto sucedeu-se até ao fim dos meus dias no 3º ciclo. Foram quase 3 anos…eu entrava na escola e começava logo a engendrar qual o caminho que deveria seguir para a sala e os cuidados a ter. Doía-me claro, e então numa fase em que eu estava longe de acreditar que isso fosse real, porque o grande clique deu-se no final desses quase 3 anos. Apaixonei-me por um rapaz e tudo o que se seguiu foi totalmente desastroso…o facto de ser muito novo e imaturo fez com que para além de eu acreditar que não estava a fazer nada de errado ou que comprometesse o que eu queria indicar às pessoas, fez com que deitasse literalmente as cartas sobre a mesa. O que me faz rir ao estar a escrever isto é o facto de eu ter achado na altura que estava tudo controlado pois inventei uma paixão por uma rapariga escolhida a dedo que tivesse o mais em comum possível comigo, fotos editadas a preto e branco para o Hi5 e Messenger…era tudo para inglês ver. No final do ano a corda já tinha sido esticada ao máximo e veio quase tudo ao de cima ali mas tive sorte, o rapaz percebeu mas soube lidar muito bem com a situação, afastou-se e fez de conta que nada aconteceu. É possível cruzar-me com ele na rua nos dias de hoje e é mesmo como se nada tivesse acontecido. Eu gosto de me cruzar com ele! Seguiu-se o Secundário e os rumores arrastaram-se, o que eu tinha feito no passado perseguia-me no presente e chegaram-me a pôr à prova para conseguirem arrancar a verdade que eu continuava a querer mostrar que não era nada comigo…não quero recordar isso, mas safei-me mais uma vez. A meio do Secundário eu comecei a interiorizar na minha cabeça que era verdade e que não podia fugir, então decidi revelar os factos a uma amiga e depois a outra e mais outra e mais outra. Avisaram-me que era tema de conversa dos meus colegas a minha sexualidade, o jogo do “é ou não é”, o “é de certeza”, “age como tal”… Era desconfortável para mim, não consegui ter uma boa relação com os meus colegas, fiz tudo o que achava bem para o conseguir mas não fui bem sucedido. Consegui ganhar o respeito da parte deles com uma carta até então ainda não jogada nesse sentido, o álcool. Numa viagem ao estrangeiro numa noite embebedei-me e dei a parte frágil por inteiro, conversei sobre o assunto a jogar sempre na defensiva, mas meteram-se os pontos nos Is, isso é que importa! Isto aconteceu há pouco mais de 1 ano. A partir daí tudo deu um salto enorme, e eu comecei a revelar-me mais. O álcool entra outra vez, numa saída à noite. Uma grande bebedeira acabou comigo “atracado” a um rapaz na pista também bêbado, cena que se iria repetir mais vezes. Segui para outra viagem no estrangeiro, esta de algumas semanas, não eram férias mas para mim foi como se fosse. Tinha a faca e o queijo na mão como se costuma dizer, estava longe no sítio indicado na altura indicada e com espaço para me expandir ou seja para poder ser EU mesmo. Conhecia muitos rapazes vindos de todos os cantos do Mundo tinha oportunidade de socializar com eles, beber uns copos, ir para à praia de noite, etc… Nunca nada de oficial aconteceu, talvez precisasse de mais tempo ou de ser mais brando. Foram poucos os rapazes ditos homossexuais que conheci nesses tempos, mas também passaram por mim e só me apercebi mais tarde. Era feliz mesmo sem nada de oficial, já tinha muita coisa que não tinha, rapazes a rodearem-me e a conviverem comigo, coisa que não acontece nem agora nem antes disto. Voltei-me a “atracar” a não sei quantos rapazes nas farras e a delirar à minha maneira e desta vez há registo disso…mas o que importava, era eu ser livre. Eu nunca passei de um abracinho aqui e outro ali, eu nunca fui muito mais longe do que isso, ainda não houve oportunidade. No fim dessa jornada dei por mim a colapsar desesperado por ter que acordar no dia a seguir a saber que tudo tinha acabado e que ia voltar à vida monótona e infeliz com que não me identifico e que me consome a cada dia que passa. Não tenho um amigo rapaz há anos…é das coisas que mais me custa suportar, é difícil viver com essa realidade. Sinto-me constrangido ao andar na rua, tenho medo que me “topem” e me olhem de lado ou me façam alguma coisa de mal por causa disso. Mostro-me revoltado com o meio onde estou inserido e ridicularizo-me por vezes, agora mando dicas a quem não quer acreditar na veracidade dos factos mesmo com medo de ter de encarar essas pessoas quando a verdade vier ao de cima por completo. Continuo perturbado por ainda ter que me esconder…isto tira-me todos os dias o sono e condiciona-me o dia, tenho variações de humor e acordo inexplicavelmente com dores de cabeça e revoltado com o Mundo. As pessoas à minha volta não têm capacidade para me entender na verdade pois geralmente não estão aptas para isso…nunca vão poder compreender a dimensão que isto tem numa vida. Isto não se escolhe mesmo, ninguém escolheria o caminho do sofrimento, iria sempre pela via mais fácil e comum, mas é mesmo assim a essência da vida…nem tudo é feito de escolhas e de opções, nasce-se assim. Ainda tenho um longo caminho a percorrer. Nem quero imaginar quando tiver que confrontar os meus pais com a verdade…está-se a tornar insuportável ouvir coisas do género “Quando arranjas namorada?” e eles condicionam-me a liberdade e privacidade que precisava. Há muito amor lá fora. Quantas vezes penso em não voltar a acordar ou que não deveria ter nascido? É logo o café da manhã, mas se eu estou a escrever isto neste momento é porque ainda não desisti. Quero voltar a sonhar acordado. Detesto sonhar a dormir. Eu gosto muito de viver a realidade mesmo que crie um ambiente de ficção na minha mente, mas não se pode desistir, vou lá agora desistir sem saber o que é bom… Nem pensar! Com isto quero dizer a todos os que se derem ao trabalho de ler este testamento que não podem desistir e que têm de se agarrar às pequenas coisas boas que já aconteceram ou pensar nas que podem vir a acontecer, por mais que eu neste momento tenha um autêntico ciclone sobre mim…dizem que depois da tempestade vem a bonança e é nisso que é preciso acreditar! Não baixem os braços! Vão à luta! Não se desculpem por serem quem são…ninguém é melhor que vocês e, um dia, Tudo Vai Melhorar!"
— Anónimo (Lisboa)